artigos
A busca da satisfação
As crianças nascem com algumas necessidades básicas: fome, sede, frio, etc. que a mamãe está lá (quase sempre) para satisfazer. Quando uma mãe cuida do seu bebê, ela (quase) sempre cuida com muito carinho e amor. A fome é saciada com leite e amor, a sede é saciada com suquinho e amor, o frio com uma mantinha e mais amor... O bebê logo liga a satisfação de suas necessidades básicas com amor e elas se transformam, aos poucos, em demandas de amor: se está com fome, a fome é mais fome de amor; se está com sede, é mais uma sede de amor... Suas necessidades começam a ser representadas por FALTA DE AMOR (carinho, carícias...).
É claro que não dá para uma mãe estar com seu bebê o tempo todo. Ele vai, necessariamente, sentir falta da mãe nos momentos em que ela está cuidando de outras coisas: outros filhos, o marido, a casa, o trabalho. Estes são momentos muito importantes para a criança: se ela fica grudada na mãe o tempo todo, vai se tornar um adulto só por fora e continuar criança por dentro. Mas estes momentos de falta serão vividos, pela criança, como INSATISFAÇÕES e, dependendo da relação dentro da família, insatisfações bem marcantes.
Todo ser humano leva esta marca de insatisfação e, conseqüentemente, está sempre insatisfeito, sempre em busca de satisfação.
Se estamos sempre insatisfeitos e sempre atrás de satisfação, estamos, também, sempre, com EXPECTATIVAS: "o quê vai me satisfazer agora?" Basta que tenhamos um pouco de fome para aparecer em nós a expectativa: "como vou satisfazer minha fome?": talvez uma pizza? Um churrasco? Uma torta de maçã? Muitas vezes nossa geladeira está cheia de coisas, mas pensamos: "Não estou com vontade de nada disso! Vou sair e comer um hamburger na padaria..."Um leão faminto não tem estas dúvidas: ataca a primeira coisa comestível que aparece.
A esta expectativa de satisfação podemos chamar DESEJO: o lançamento de uma expectativa de satisfação em cima de algum objeto específico.
Se observarmos bem, uma expectativa é apenas um pensamento: eu acho que aquilo
vai me satisfazer... Uma torta de padaria, sempre tão vistosa, tão apetitosa, é
freqüentemente uma decepção. Sabemos disso, mas saber não impede que tenhamos
esta expectativa renovada cada vez que olhamos para uma.
E mesmo a satisfação, quando a encontramos mesmo, dura pouco: não demora para eu estar insatisfeito novamente e, novamente, vir a expectativa...
Ter expectativas, desejos, é importante porque nos dá um sentido para viver. Uma direção. Uma motivação. Sem motivos para viver a vida perde a graça e, aí, é a depressão.
Parece, então, que estamos nas mãos de nossas expectativas de satisfação. O "x" da questão, agora, é o quê cada um de nós faz com isso. Como lidamos com nossas expectativas? Como lidamos com nossos desejos? Veja, abaixo:

Quando você se perde neste ciclo, isto se chama COMPULSÃO.
Uma vez que percebemos uma insatisfação, o imediato é imaginarmos um jeito de nos satisfazer. Às vezes tentamos até a satisfação apenas com a imaginação (fantasia), mas isto não dura muito, fantasia não satisfaz ninguém. Quem sabe, pra começar, fosse bom perguntar-se "que insatisfação é essa?", "insatisfação de quê?" Se saímos atrás de acabar com uma insatisfação desconhecida, inconsciente, o mais provável é que acabemos por permanecer insatisfeitos e, em algum momento, nos "desesperando", às vezes apelando para qualquer coisa...
Às vezes, quando a insatisfação é sentida como grande demais, corremos o risco de cair em armadilhas:
1) Ressentimento, mágoa: quando nós sentimos nossas "marcas de falta" como "excessivas", podemos ficar na posição de que "a vida está em dívida comigo" e ficar eternamente preso em auto-piedade, esperando o "pagamento" que, é claro, não virá!...
2) Quando nossas insatisfações nos levam a construir expectativas fora do razoável, como, por exemplo, querer ser "reconhecido", querer "consertar" pais ou pessoas que sentimos que "falharam conosco", ou querer ser, para os outros, "indispensável" ou "útil" ou "a fortaleza", estamos condenados a nos frustrar porque são coisas que não dependem só de nós, em relação às quais somos, portanto, IMPOTENTES.
3) Se, ao contrário, assumimos uma posição de desistir de tudo, achando que tudo é inútil, pensando em alguma coisa como: "dane-se tudo!", a agressão contra nós mesmos e a falta de perspectiva vão trazer, quase certamente, a depressão e a derrota.
Em alguns momentos, podemos achar alguma coisa que nos satisfaça muito e, então, nos deixarmos "capturar" por aquilo como se houvéssemos achado "tudo de bom". Isto acontece, por exemplo, com comida: algumas pessoas associam comer com uma satisfação tão boa que se deixam capturar. Comem até não agüentar mais. Outras, acham esta satisfação especial no Bingo. Não conseguem parar de jogar até que acabem com dinheiro que têm. Outras acham isto na bebida ou na droga: deixam-se "capturar" por estes prazeres e entregam-se a eles como se fossem um pedaço do paraíso. Infelizmente, de paraíso isto não tem quase nada: comer desmesuradamente leva pessoas à obesidade mórbida, jogar desmesurada-mente leva as pessoas à falência, drogas e álcool levam as pessoas para a cadeia ou para o além... E mesmo estes, que acham que encontraram o "tudo de bom", acabam por voltar à velha, conhecida e INEVITÁVEL insatisfação.
Como se sai disto?
A saída é cada um procurar em si onde estão as insatisfações mais sofridas e fazer alguma coisa a respeito. Para isto é preciso um auto-questionamento: "eu estou correndo atrás do quê?", "sinto falta do quê?", "onde está minha incompletude?", "o que pode me fazer feliz (satisfeito comigo mesmo e com minha vida)?" Sem isto, podemos ficar eternamente tentando prover satisfações inadequadas para insatisfações desconhecidas, falhando quase sempre e sentindo uma frustração difícil de suportar.
Se você anda atrapalhado com isso na sua vida, pergunte-se:
- "Será que eu sei pelo quê eu sofro?"
- "Será que eu sei do quê eu sinto falta na minha vida?"
- "Será que eu sei pelo quê eu estou lutando?"
- "Afinal, eu estou atrás do quê?"