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Alguém pode ser uma ilha?

É lugar comum ouvir coisas como: "ninguém é uma ilha", "o homem não é uma ilha" ou "nenhum homem é uma ilha" e, frequentemente, pensa-se que isto quer dizer que "precisamos nos comunicar". Os tímidos, os quietos, os introspectivos discordam....

Muitas pessoas, principalmente no mundo de hoje, estão preferindo viver no seu mundo privado, por várias razões.

  • Hoje em dia, os limites andam mal demarcados e é comum achar pessoas que se intrometam demais na vida alheia. Como privacidade é bom e todos temos direito a ela, alguns reagem "se fechando".
  • O mundo moderno, muito competitivo, gera estilos de vida muito individualistas, onde as pessoas preferem criar sua "fortaleza fechada", até porque "quanto menos o inimigo souber de mim, melhor..."
  • Como conseqüência do mundo competitivo, da falta de tempo para passar com as crianças e da culpa que isto acaba gerando, o estilo de criar os filhos tem privilegiado as atividades individuais, como jogos de computador e vídeo-game: o que poderíamos chamar de "se virar sozinho". Os "chats" e as amizades virtuais estão muito mais presentes do que atividades coletivas (esportes, encontros em grupo, contatos pessoais).
  • Mesmo quando há atividades em grupo, a competitividade é tanta que os contatos pessoais são reduzidos quase apenas a rivalidades e a disputas.

Por tudo isto, parece que, afinal, o homem pode sim, e talvez deva, ser uma ilha. Será?

Há mais de cem anos a psicanálise vem estudando o fenômeno "ser humano" e uma das coisas que, a partir dela, se pode afirmar é que o que é humano no homo sapiens é produto da cultura. Um ser humano só vem a ser humano porque se forma, se estrutura num meio humanizado. Sendo assim, tudo o que somos e que podemos chamar de "um modo humano de ser" foi construído em nós pelas nossas experiências, pela nossa história de vida, através das pessoas que mais nos influenciaram (classicamente, a mãe e o pai). Se, por alguma razão, nós nos tornamos adultos "ilhados" isto é conseqüência desta história.

E que mal há nisso? Por eu ser produto de uma cultura, isto me força a não ser uma ilha?

Quando uma criança nasce, vem ao mundo quase como um livro em branco. Deste mundo ela não sabe quase nada (apenas o que seus parcos instintos lhe trazem, que não é exatamente um saber). Ela aprende a dar e receber afeto nos seus contatos com a mãe. Ela aprende a interpretar o que sente aos poucos: o que, hoje, é uma "dor de barriga", um dia foi, apenas, um incômodo no abdomem que a fazia chorar e a mãe lhe dizia: "Calma, neném! É só uma dorzinha de barriga..." Quando ela ouve o estrondo de um trovão, só não fica apavorada porque alguém lhe diz: "Calma, neném, é um trovão. É a chuva que vem aí..."

A criança só aprende a se localizar no mundo "humano" porque outros humanos a "inseriram" nele. A visão de mundo que construímos para nós, o que o mundo é para nós nos foi passado pelo nosso convívio com os outros. E a conseqüência disto é que este mundo é, necessariamente, um mundo COMPARTILHADO. Tudo isto a que chamamos mundo só faz sentido para mim porque ele é assim, também, para os meus "irmãos" humanos. Se não fosse, eu me sentiria um ET e seria considerado um ET.

Falando em "fazer sentido", isto é absolutamente essencial para nós. O "sem sentido" é angustiante e, muitas vezes, dolorido. É fácil perceber isto:

  • Quando estamos num país estrangeiro e não sabemos a língua que é falada ali, não demora para nos sentirmos muito mal, exasperados. Para alguns, esta é uma sensação desesperadora. E é assim que podemos ficar quando nos isolamos do mundo e de nós mesmos: nos sentindo radicalmente estranhos.
  • Quando algo ruim nos acontece, como um desastre ou uma morte prematura de um ente querido, o sem sentido toma conta de nós. Ficamos desesperados nos perguntando "por quê?". Nestas horas, conversar com alguém pode ser o único caminho para nos sentirmos melhor. Isto porque, em falando, acabamos por ver mais aspectos da situação e ir encontrando mais e mais sentido para aquilo que não fazia sentido nenhum.
  • Quando nos encontramos em situações na vida nas quais nos sentimos perdidos, nada melhor para nos ajudar do que conversar com a pessoa certa, que nos ajude a "colocar os pingos nos i's"...
  • Se acontecem coisas que me deixam "perdido de mim mesmo", é quase impossível eu perceber isso sozinho. Vou precisar de alguém que tenha a capacidade de me perceber para ajudar-me a me encontrar de novo. Se eu percebo um mal estar em mim, posso tomar providências a respeito, mas se este mal estar é inconsciente, se nem o percebo, não vou fazer conseguir fazer nada, apenas sofrer as conseqüências.

Parece, então, que a resposta à nossa questão inicial é, na verdade, uma escolha: tornar-me "uma ilha" para me proteger de algumas coisas, das pessoas me cobra um preço alto. Talvez uma estratégia melhor seja:

   1) Quando estamos num país estrangeiro e não sabemos a língua que é falada ali, não demora para nos sentirmos muito mal, exasperados. Para alguns, esta é uma sensação desesperadora. E é assim que podemos ficar quando nos isolamos do mundo e de nós mesmos: nos sentindo radicalmente estranhos.

   2) Quando algo ruim nos acontece, como um desastre ou uma morte prematura de um ente querido, o sem sentido toma conta de nós. Ficamos desesperados nos perguntando "por quê?". Nestas horas, conversar com alguém pode ser o único caminho para nos sentirmos melhor.

Isto porque, em falando, acabamos por ver mais aspectos da situação e ir encontrando mais e mais sentido para aquilo que não fazia sentido nenhum. Isto me permitirá viver bem comigo mesmo e com todo mundo, apesar de sermos diferentes, sentirmos diferente, pensarmos diferente, interpretarmos as coisas de maneira diferente, vermos o mundo por ângulos diferentes.

O homem pode, sim, ser uma ilha! Mas esta não é uma boa idéia!

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