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O orgulho e a humildade
1) A auto-estima
As crianças, quando vêm ao mundo, são muito bem-vindas (em sua maioria) porque são desejadas desde muito tempo. A mãe deseja ter um filho desde que começou a brincar de bonecas e o pai deseja ser pai desde que se descobriu um homenzinho. Este desejo dos pais pelo filho é muito importante porque prepara um ambiente de aceitação e acolhimento para ele.
Quando o bebê nasce, desde logo se torna o que há de mais importante na casa, o centro de todas as atenções: ocupa o posto de SUA MAJESTADE, O BEBÊ. Mas as crianças nascem, também, sempre num estado de extremo desamparo e fragilidade. Para elas, aquele adulto que cuida delas (normalmente a mãe) é absolutamente necessário e bem vindo e ocupa o lugar de um DEUS. Aquele pequeno ser, em pouco tempo, estará completamente dominado pela necessidade de agradar seu Deus para garantir ser amado (e cuidado) por ele: seu primeiro desejo é ser desejado por ele e desejar o que o ele deseja para garantir o seu amor... É fundamental para a criança SER ACEITA COMO É. A aceitação dos outros significará, para ela, que ela É AMADA COMO É.
Por volta dos 18 meses, esta criança começa a perceber-se no “espelho”. Observamos as crianças cheias de jubilo contemplando sua imagem num espelho e sorrindo. Mas este é, também, um espelho de linguagem: ela começa a construir uma imagem de si pelo que lhe dizem os outros - principalmente a mãe (“a gorduchinha”, “a sapeca”, “a diabinha”, “a impossível”, “a santinha”, etc.). Neste ponto, se a criança é apresentada a uma imagem de si “estragada” (“você é uma lerda!”, “olha a sujeira que você fez!”, “sai daí que você só faz bagunça!”...), ela, que se achava “sua majestade”, pode sentir-se “desqualificada” com muita força, tendo uma profunda decepção consigo mesma. Se esta imagem que ela constrói de si não se coaduna com seu SER, com aquilo que ela percebe em seu interior, cria-se um abismo entre o que ela, no fundo, é e como gostariam (inclusive ela mesma) que ela fosse: o resultado é baixa auto-estima e NÃO ACEITAÇÃO de si mesma. Isto vai constituir-se numa fonte constante de sofrimento com o sentimento de inadequação e incapacidade...
2) O orgulho
Quando a auto-estima da criança é baixa, sua percepção de si mesma está longe do que ela acha que deveria ser. Isto gera um sofrimento grande por não se aceitar (achar-se “um nada”) e uma necessidade muito grande de compensar mostrando-se melhor, criando uma imagem melhor de si para si mesma e para os outros (que ela pensa que a vêem tão pequena quanto ela se sente). Sua “reação natural” é defender-se deste olhar desqualificante tentando provar que é o máximo. O resultado é o que conhecemos como ORGULHO: empáfia, soberba, (falsa) auto-suficiência...
O orgulho e nossa "vida emocional"
Muito do que sentimos, o modo como atravessamos muitas experiências na nossa vida, está diretamente relacionado com o orgulho.
Quando uma mãe ou pai diz para o filho: "estou orgulhoso de você!", quere, na verdade, dizer algo como: "você melhora minha auto-imagem perante os outros, sendo (ou fazendo) algo que todos apreciamos", ou ainda: "você me envaidece". A vaidade é, na verdade, um cuidado que temos com nossa auto-imagem. Quando temos boa auto-estima, nosso gosto por nos cuidarmos é um reflexo disto: "cuido-me porque gosto de mim." Mas quando nossa auto-estima é baixa, fazemos de tudo para melhorar nossa imagem. Aí, a vaidade faz parte do nosso modo de nos expressarmos no mundo. É, na verdade, uma defesa contra nos deixarmos ver feios, desleixados, parecendo menos do que já pensamos ser. Estaremos, então, fazendo algo para melhorar a maneira como os outros (e nós mesmos) nos enxergam.
A vergonha é a emoção diretamente relacionada ao orgulho. Aquele que sente vergonha está sentindo sua auto-imagem diminuída. As reações do sujeito orgulhoso à vergonha são sempre dramáticas porque é justamente disso que ele sofre: de uma auto-imagem ruim. A vergonha é justamente o sintoma de que algo aconteceu para piorar ainda mais esta situação. E o sujeito sente-se, então, "humilhado". Algo como terem jogado sua auto-imagem na sarjeta... Esta humilhação tem vários níveis e o sujeito submetido a ela pode desenvolver uma raiva muito forte ou um rancor muito intenso, conforme possa (se permita) reagir ou seja obrigado (se constranja) a suportar.
O orgulhoso freqüentemente se sente humilhado. Isto vem do sentimento que tem de estar sendo forçado a ter sua auto-imagem "rebaixada" - muitas vezes rebaixada das alturas em que ele, o orgulhoso, artificialmente a pôs.
O sentimento de culpa aparece quando percebemos ter feito mal a alguém que amamos. Este alguém podemos ser NÓS MESMOS. Não é raro sentirmos culpa por termos feito algo que nos envergonha, como "pagar mico", por exemplo. Ficamos com raiva de nós mesmos porque denegrimos nossa própria imagem...
Uma das raivas mais violentas que sentimos é a que vem por alguém ter denegrido nossa imagem: a raiva pela "honra ferida". Do que temos tanto ódio? Do que vão pensar de nós: "ele é um corno", "ele é um covarde", "ele é um frouxo"...
Outra situação comum é sermos contrariados e pensarmos (preocupados com NOSSO umbigo) que "fizeram de propósito!", ou "queriam ME machucar!". Não é raro que brigas de trânsito, que muitas vezes acabam em tiroteio e até morte, aconteçam por isso: "Mas que folgado! Como se atreve a fazer isso COMIGO!"
As emoções "positivas" não escapam do orgulho. Se algo bom acontece com um orgulhoso, ele logo pensa coisas como: "eu sou bom mesmo!", "olhem como eu consegui fácil!", "olhem como ficou (eu sou) PERFEITO!"
Nossas vidas ficam bem mais complicadas quando temos como companheiro o orgulho. Além de gastarmos muita energia apenas tentando, continuamente, melhorar nossa auto-imagem, reagimos emocionalmente de maneira agressiva e egoísta ao mundo, trazendo isolamento e conturbação
3) A humildade
Do lado oposto ao orgulho, está a humildade. O principal significado associado a ela é MODÉSTIA. O modesto é aquele que nunca está preocupado em mostrar-se mais do que é. Ao contrário, freqüentemente minimiza suas qualidades. Mas não faz isto porque não as veja. Ao contrário: é porque as vê que não precisa mostrar-se mais do que é. O modesto tem uma auto-imagem boa. Tem boa auto-estima. Ao se relacionar com os outros, está seguro de seu valor e por isto não precisa nem competir nem se defender. Encontrar a humildade é encontrar a boa auto-estima, a auto-aceitação.
- humilde não sente raiva de quem o "rebaixe" ou "humilhe", porque está consciente de seu valor independente do que pensam os outros.
- humilde não se preocupa em estar se mostrando mais ou melhor porque sabe o quanto vale.
- humilde não guarda rancor porque não pressupõe que lhe fizeram as coisas "de propósito".
- humilde não gasta tempo e energia tentando parecer mais e melhor porque se aceita como é
- humilde não arruma inimigos pessoais, pois respeita as pessoas como são, não tenta rebaixá-las
- humilde não se incomoda de precisar da ajuda dos outros, porque não precisa se convencer de que é auto-suficiente e melhor do que todo mundo.
- humilde, ao contrário do orgulhoso, não se acha o centro do universo...
Não é à toa que todas as religiões pregam a humildade: a humildade traz paz interior e paz no convívio com os outros.